
No dia 11 de Fevereiro, os portugueses vão votar na seguinte pergunta:
«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»
Televisão, jornais, internet, conversas de café... todos os assuntos terminam em "aborto". Não aguento mais tanta impugnação de argumentos, tanta propaganda deturpada, enganadora... com o intuito de levar os menos atentos, ingénuos ou mal informados a acreditar em histórias sensacionalistas, que fogem muito ou completamente ao teor da questão. Politicamente, prevalece as leis governamentais e os interesses dos governantes.
Para nós independentes dos actos políticos, não é fácil entrar num tema destes sem pensar e reflectir muito sobre aquilo que diz e futuramente ter a certeza daquilo que vai fazer no dia 11 de Fevereiro. Quando o assunto é a VIDA e a LIBERDADE HUMANA.
Não sou mãe mas tenho plena consciência que toda a mulher que um dia decide fazer um aborto de livre e expontânea vontade, usa toda a sua força física e psicológica, toda a sua coragem. Porque, independentemente do acto doloroso e penalizante que pratica, está em jogo uma série de riscos que se gravam para sempre na sua vida pessoal, social e psicológica.
Todos os anos continuam a se praticar ilegalmente milhares de abortos no nosso país. Isto é um facto inquestionável. À custa deste "negócio" há quem enriqueça e há quem morra. Há quem fique traumatizado para o resto da vida por falta de acompanhamento médico e psicológico, há quem não possa ter mais filhos pelas infecções irremediáveis...
Será que acabando com estes abortos clandestinos, não vamos ganhar mais vidas? Será que despenalizando aquilo que actuamente é feito a "sete chaves", não haverá ninguém que ajudará uma mãe desesperada a encontar soluções, outros caminhos para aquilo que é o maior pesadelo ou trauma da sua vida? Será que não salvamos ou contrariamos aquilo que parece já estar resolvido? Será?
Depois do referendo de 1998, o "Não" ganhou, a lei continuou igual e os milhares de abortos clandestinos continuaram. Nada mudou.
E todos os dias nascem crianças, crianças que não foram desejadas, crianças negligenciadas, crianças maltratadas, crianças carenciadas, crianças abandonadas na esquina, crianças humilhadas, espancadas e violadas... num mundo onde a preocupação principal é apedrejar a mãe que movida de forças maiores não pode trazer um filho ao mundo.
Há que se consciencializar que o crime não é só não trazer um anjo ao mundo. O crime já começa no momento que penalizamos alguém por aquilo que faz, sem tentar entender ou saber o porquê de tal acto indigno. Mais fácil incriminar que ajudar, mais fácil jogar pedras do que apresentar soluções, mais fácil argumentar do que dar uma mão...
Pois, neste referendo eu não posso ser contra o direito à VIDA . O tesouro mais precioso que todos nós temos. Por outro lado, não vou ser contra os direitos humanos e neste caso o da liberdade de uma mãe sem possibilidades de sair do país para resolver o dilema mais difícil da sua vida. Uma mãe que seja ela quem for, merece ser ouvida, compreendida e ajudada.
Ninguém duvida que cada um destes direitos representa algo de essencial na dignidade humana. O específico no debate do aborto é que cada um deles, sendo fundamental, se opõe ao outro que é igualmente fundamental. Assim, de certa maneira, ao defender um se está implicitamente a menosprezar o outro. Isto é que torna esta questão tão angustiante.
É preciso escolher uma resposta e ela, qualquer que seja, tem sempre implicações terríveis...
Não me admiro nada que no dia 11 de Fevereiro tanta gente opte pela abstenção.
Eu estou angustiadamente a reflectir sobre o que vou fazer. O mais certo é aguardar até à hora de marcar a bendita cruz e nesse momento, quem sabe nesse preciso momento alguém me mostrará o caminho, uma luz virá em meu auxílio e a minha consciência me segrederá o que fazer...